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O bacalhau e os portugueses: uma relao com sculos

Se em Espanha a imagética de um povo está associada ao placard de um touro negro nas lezírias, em Portugal ela traduz-se em muito no ideário construído pelo Estado Novo à volta bacalhau, em que se quis tornar a arte dura de pescar nos mares do Norte herdeira das viagens de 1500.

As origens

Os primeiros a pescar bacalhau foram os vikings, que, à falta de sal, deixavam o peixe a secar ao ar livre nos barcos. Sal era coisa que, na Idade Média, os portugueses tinham e usavam como moeda de troca com os países nórdicos: importavam o bacalhau, exportavam o sal.

O rótulo “bacalhau da Noruega” remonta aqui. Os primeiros relatos a indicarem uma relação da pesca de bacalhau com o método da salga datam do século XIV e, durante as viagens das ditas descobertas portuguesas, no século XV, a necessidade de conservação do peixe durante longos períodos de tempo tornou-se imperiosa. Na viragem do século XV para o XVI, tornámo-nos pioneiros na armação de grandes barcos para a pesca e rumámos aos mares da Terra Nova, hoje uma província do Canadá, e da Gronelândia, a bordo dos veleiros de três mastros chamados de lugres. Em 1506, havia já um imposto sobre o bacalhau que entrava nos portos situados entre o Douro e o Minho. A pesca por frotas portuguesas manteve-se irregular e foi mesmo interrompida durante a dinastia filipina.

Contexto pré-República e pré-Estado Novo

No século XVII, o consumo de bacalhau salgado seco era generalizado, sobretudo através de intermediários ingleses em Lisboa e no Porto. Até ao século XX, consumia-se o chamado “bacalhau inglês”. Portugal só retoma a atividade de armar navios para a Terra Nova em 1835, através da Companhia de Pescarias Lisbonense.

Num artigo publicado em 2013 na revista do Centro em Rede de Investigação em Antropologia, da autoria de José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues, diz-se que o bacalhau não foi considerado comida de primeira categoria durante séculos. Em carta datada de 1773, a mulher do morgado de Mateus, então governador de São Paulo, no Brasil, escreveu-lhe a queixar-se da filha bastarda, que não queria comer “senão galinha, franga e doce, que enjoa vaca e bacalhau, único peixe que aqui aborda”. “Estamos a falar do interior, de Vila Real de Trás-os-Montes, onde esse peixe já chegava”, refere o artigo. “Um folheto da época – Aventuras, ou Lograçoens, de D. Bacalháo Quaresma e de
D. Sardinha d’Espixa (Anónimo 1790) – distribui social, espacial e culinariamente o seu consumo na cidade de Lisboa, vendo-o, em contraste com a imagem mais difundida, como integrado nos hábitos alimentares das classes média e alta. Seria consumido por aristocratas, médicos, estrangeiros, ricos, homens de “gravata lavada”, que habitariam na parte alta da cidade de então: Bairro Alto, zona do Príncipe Real, Buenos Aires ou Estrela.” O estudo refere também ser já confecionado de “mil maneiras” e que era adquirido pela Casa Real, com fornecedores próprios já nos séculos XVIII e XIX.

A expressão “fiel amigo” data também do século XIX. É famosa a frase de Eça de Queiroz, escrita numa carta endereçada ao seu amigo Oliveira Martins em 1884: “Os meus romances no fundo são franceses, como eu sou em quase tudo um francês – exceto num certo fundo sincero de tristeza lírica, que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada.”

E assim começou o mito

O bacalhau não escapou à máquina de propaganda do Estado Novo, que transformou as duras lides da pesca numa epopeia romanceada, nessa contradição de nos projetar enquanto povo valente e destemido mas de nos exigir recato e pequeneza. Em 1937, ocorre a primeira greve e única dos bacalhoeiros em Portugal durante o salazarismo, a que se sucede um conjunto de medidas de enquadramento, proteção e incentivo aos pescadores do bacalhau.

A manchete do Diário de Notícias do dia 4 de maio do ano anterior falava com pompa e circunstância da cerimónia da bênção da frota dos lugres bacalhoeiros, que ia rumar aos mares da Terra Nova e da Gronelândia, e contou com a presença dos ministros da Marinha e do Comércio, assim como do subsecretário das Corporações. O antetítulo e o título diziam tudo: “Uma linda festa no Tejo” e “Foi impressionante a cerimónia da bênção dos lugres bacalhoeiros”.

A campanha

Álvaro Garrido, historiador das ações marítimas e piscatórias portuguesas, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e consultor do Museu Marítimo de Ílhavo, é também autor do prefácio da republicação do livro A Campanha do Argus, pela Cavalo de Ferro, em 2014. O autor, Alan Villiers, foi oficial da marinha australiana e um repórter de sucesso da National Geographic Magazine. O convite feito a Villiers para acompanhar uma frota bacalhoeira partiu do embaixador português em Washington, Pedro Teotónio Pereira. O livro, datado de 1951, foi editado em Nova Iorque pela Charles Scribner’s Sons e em Londres pela Hodder & Stoughton e veio a tornar-se um clássico da literatura marítima mundial. Vil­liers fez também um filme documental com as imagens que captou durante a viagem. Estava assim criado “o drama épico da pesca do bacalhau”.

Na introdução ao livro, Álvaro Garrido escreve: “A propósito da experiência que tivera nos bancos da Terra Nova e do livro que acabara de redigir, em agosto de 1951 Alan Villiers deu conferências em diversas universidades americanas. Afável e carismático, o comandante Villiers falava tão bem quanto escrevia. Instruído sobre a vulgata historicista da propaganda portuguesa, nunca se furtou a comparar os capitães e pescadores portugueses aos navegadores de Quinhentos.” E, mais à frente, diz: “Aos olhos de Lisboa, o trabalho da diplomacia portuguesa foi considerado “impecável”; um fiel exemplo de uma diplomacia arguta e mobilizadora, capaz de exaltar o presente e de mostrar à América quanto os dirigentes portugueses seriam dignos do seu passado. Todo este intenso trabalho de propaganda, certamente pago pelas autoridades salazaristas, despertou ondas de emoção em Portugal.”

O pico da captura

As décadas de 1950 e 60 marcaram o auge da frota bacalhoeira portuguesa. Se em 1934 Portugal produzia 11% do bacalhau que comia, na década de 1960 esse número ascendia aos 70%. As frotas de lugres transportavam em pilha os dóris, as embarcações a remos de um homem lançadas ao mar para pescar o bacalhau à linha – arte dominante de pesca até 1974. Com uma duração de cerca de seis meses, de cada viagem regressavam sempre menos homens do que os que tinham partido. As condições de trabalho eram muito duras, como descreve Garrido no prefácio: “As viagens dos pescadores de dóri eram relativamente curtas, mas perigosas. Os pescadores-marinheiros afastavam-se do ‘navio-mãe’ centenas de metros, às vezes duas ou três milhas, e voltavam largas horas depois, quando carregados de bacalhau. O nevoeiro e os icebergues eram os principais obstáculos a vencer.” Já para não falar nos fatores vento e ondulação. “O primitivismo do trabalho a bordo dos pequenos dóris (a pesca com linhas e anzóis), a dureza das tarefas no convés (a escala) e os constrangimentos do porão (a salga de bordo) cederam ante a beleza do navio e a bravura dos seus homens. Castigados por jornadas de trabalho que desafiavam os limites da resistência humana, os rudes pescadores passaram a ‘intrépidos navegantes’.”
 

Cada um por si, dezenas de homens eram lançados ao mar nos doris, os botes da pesca do bacalhau.

O fim

Numa entrevista dada em 2018 a Nuno Ramos de Almeida para o jornal i a propósito da reedição do ano passado de A Campanha do Argus pela Cavalo de Ferro, Álvaro Garrido explicava que o objetivo do Estado Novo era, do ponto de vista económico, “tornar barata a subsistência através de uma proteína de largo consumo que fosse um fator de bloqueio dos salários e de financiamento da paz social”. Em 1958, Portugal tornava-se o produtor n.º 1 de bacalhau salgado seco. “Há toda uma propaganda do êxito da campanha do bacalhau, dessa afirmação do mercado internacional, do qual Portugal era historicamente muito dependente.” A partir dos anos 1960, começam a surgir os problemas motivados pela mudança do direito do mar e pela crescente dificuldade em arranjar quem quisesse trabalhar naquelas condições. Álvaro Garrido associa a queda da pesca do bacalhau à queda do Estado Novo. Os últimos três grandes navios de pesca de bacalhau à linha vão pela última vez ao mar em 1974. Não há coincidências.

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